Uma vida transformada em um globo da morte: Lorde, um motociclista descontrolado.

Eu e esta pessoa nascemos no mesmo local e dia: jogamos bolinha de gude, andamos a cavalo, brincamos de carrinho de lomba, enfim, uma infância maravilhosa. Muitos anos passaram e hoje resolvi fazer um resgate, mesmo que incompleto, das peripécias desta criatura amiga. Seus pais tinham condições, mas ele, que vou chamar a partir daqui de Lorde, não dando nome nem locais precisos dos fatos, desde cedo resolveu fazer de sua vida um globo da morte. Aos 13 anos foi descoberto por um locutor de rádio, que viu potencial em sua voz. Logo começou a trabalhar em rádios, gravar comerciais e ganhar sua vida. Aos 16, devido ao Regime Militar, seu pai o emancipou, pois ele não saia da rua, fazendo seu trabalho à noite e jogando futebol. Jogava muito, sua grande paixão. Infelizmente, uma gravíssima lesão aos 17 anos o tirou dos campos do esporte e o jogou nos da vida. Carreira militar abortada, viu seus grandes amigos e parceiros iniciarem suas preparações. Mais tarde falo deles. Uma linda cantora, uma paixão, e lá estava ele no Rio de Janeiro, vivendo este amor e ganhando a vida, com shows de canto e dança nas casas do baixo meretrício, pois cantar mesmo ele não cantava nada, somente enganava. Picadeiros de circos, dos mais populares a grandes companhias internacionais, tiveram suas atrações anunciadas por sua voz. Convites para novos caminhos e desafios chegaram. Lá se foi o Lorde para os países do prata, fazer seus shows e trabalhar em navios de cruzeiros, com um famoso cantor internacional, que estava estourando na mídia. Ganhou muito dinheiro, voltou ao Brasil e se tornou empreendedor; sua firma teve 28 colaboradores diretos. Recaída: passou a gostar de espumante francês fabricado em Garibaldi, belas namoradas e cavalos. Parafraseando o Gal. Flores da Cunha: mulheres ligeiras e cavalos lentos. Indenizações pagas, acertos feitos e bolso vazio novamente. Outros rolos amorosos impublicáveis, fios desencapados, novos negócios, mas logo se casou, teve duas filhas e ficou mais acomodado. Um dos maiores orgulhos de Lorde foi de sempre ter sido amigo de pobres ou ricos, sem nunca pedir nada em troca. Personalidades influentes gostavam de ter Lorde em sua companhia, em jantares ou aparições públicas: Lorde era grife social e popular.  Recomeçou a trabalhar com coisas mais sólidas, mas que não decolaram. Suas teimosias impediam novas ideias a fluírem, O tempo foi passando, as coisas mudaram, a globalização chegou e o Lorde cantava e dançava mal, parou no tempo ou o tempo parou nele. Novo amor e chegou sua filha caçula. Mudança de ciclo, boa recuperação financeira, pois, diferente de colegas, sempre cumpria o prometido. Nova interrupção, devido a mudanças na economia, e, quando tudo se encaminhava para uma estabilidade, a pandemia chegou. Lembram que falei anteriormente de seus amigos de quartel: hoje todos Oficiais Generais. Dia destes, em plena pandemia, vi o Lorde correndo e fazendo alongamento. Vem cá, disse ele, levou-me a sua casa, mostrou-me suas chuteiras engraxadas com sebo de boi e disse: está pérola. Vou voltar a jogar futebol; atualmente, com estes cabeças de bagre, sou melhor que eles, vou ganhar dinheiro (sua última partida foi em 1966), ou então vou para o Uruguai, ali, no mercado do porto, deixei em 2000 meu carrinho, vou vender panchos, bolos fritos e postas de peixe ao dourado, ou, quem sabe, morrer no Paraguai, ouvindo lindas guarânias. Questionei: e sua família? De pronto sua reposta: está é uma outra história.A idade chega; antes desta viagem, que poderá ser a última, vou levar o Lorde para uma visita médica, aproveitando para também fazer a minha, pois, quem sabe, a razão não está com ele!?

Esta história é verídica, sendo que suas semelhanças serão meras coincidências.

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Jandir Lautert

Editor Chefe Especialista em reconhecimento pessoal e empresarial, no Sul do país e Mercosul, em eventos sociais e empresariais e premiações importantes SÌMBOLO produções

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